Gases renováveis: o motor esquecido da transição energética
Nos últimos anos tem-se falado muito sobre eletrificação, painéis solares, carros elétricos e bombas de calor. Mas há um tema central que raramente entra com a devida força no debate energético nacional: o papel do gás na transição energética, através dos gases renováveis.
Falamos aqui do biometano , do hidrogénio verde e de outras soluções renováveis que podem ser injetadas na atual rede de gás, reduzindo emissões, fazendo uso de infraestruturas já existentes e diversificando a nossa matriz energética.
O recente foco que tem sido dado há eletrificação da economia como meio de descarbonização, não deve esquecer o enorme potencial existente neste outro pilar de transição um pilar que garante sustentabilidade, competitividade e independência energética.
A rede de gás como ativo estratégico nacional
Portugal tem uma rede pronta e subaproveitada
A rede nacional de gás natural cobre praticamente todo o território e está em excelentes condições técnicas. Sendo uma das mais recentes da Europa, está já preparada para receber e distribuir gases renováveis, como o biometano e o hidrogénio verde.
Ignorar esse ativo seria um erro estratégico: estamos a falar de milhares de quilómetros de gasodutos, estações de compressão e armazenamento já pagas pelos consumidores, prontas para serem utilizadas no contexto de uma economia descarbonizada.
Em vez de retirar relevância a esta infraestrutura e enterrar o seu potencial, fará todo o sentido transformá-la num canal de energia limpa.
Reduzem emissões e de forma mensurável
Os gases renováveis podem substituir o gás natural fóssil sem alterar o conforto ou as rotinas dos consumidores.
O biometano, por exemplo, é produzido a partir de resíduos agrícolas, urbanos e industriais resíduos que, de outra forma, libertariam metano para a atmosfera. Este processo fecha o ciclo do carbono e contribui para uma real economia circular. Estudos apontam que o biometano pode reduzir até 95% das emissões de CO₂ face ao gás natural convencional.
Já o hidrogénio verde, produzido através do eletrólise da água com energia renovável, é um vetor de energia neutro em carbono e essencial para descarbonizar setores como os transportes pesados e a indústria.
Promovem autonomia e segurança energética
Contar exclusivamente com a eletricidade como vetor energético traz riscos de dependência e vulnerabilidade.
O grande apagão de abril de 2025 mostrou quão frágil pode ser um sistema confina as suas soluções a uma opção.
Os gases renováveis oferecem uma camada adicional de resiliência: podem ser armazenados em grande escala, distribuídos facilmente e utilizados mesmo em situações de falha da rede elétrica.
Além disso, são produzidos com potencial endógeno, podendo ser produzidos localmente, criando emprego e reduzindo a dependência das importações.
Estimulam um novo tecido económico
O desenvolvimento dos gases renováveis abre portas a uma nova economia rural e industrial. A produção de biometano pode alavancar cooperativas agrícolas, promover parcerias com a pecuária e valorizar resíduos que de outra forma seriam desperdiçados.
O hidrogénio verde, por sua vez, já mobiliza investimentos em portos e parques industriais, com potencial de exportação de energia limpa para toda a Europa.
Estamos perante uma oportunidade económica e ambiental: reduzir emissões, gerar emprego e manter o valor dentro do país.
Uma transição equilibrada
A transição energética não deve ser uma corrida para abandonar tecnologias, mas sim uma maratona para integrar soluções diversificadas.
Os gases renováveis podem – e devem – coexistir com a eletrificação, atuando onde esta é menos eficiente: no armazenamento, nos transportes pesados e na indústria hard-to-abate.
Portugal tem condições para liderar esta frente: sol, vento, biomassa, resíduos e uma rede de gás pronta a receber esses novos combustíveis verdes.
Em conclusão
Apostar nos gases renováveis é apostar em:
- Uma transição energética mais equilibrada e inteligente.
- Uma redução real e mensurável das emissões.
- Uma economia mais circular e sustentável.
- Uma rede energética mais resiliente e diversificada.
- Uma verdadeira independência energética nacional.
Enquanto alguns olham apenas para a ficha elétrica, há um caminho mais amplo e mais seguro a trilhar: o caminho dos gases renováveis.
Porque o futuro não será apenas elétrico. O futuro do gás natural e da energia limpa será diversificado, eficiente e, acima de tudo, português.
